sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lúgubre penar

 .

O temporal parecia dar tréguas ao encerrar a precipitação; E Zabub, na presença de Abdul Alhazred, pôs-se a olhar para o céu.



Dia de um entardecer ofuscante
Ouro diante de meus olhos 
Mas meus olhos o recusam
Apenas vêem
A ausência das estrelas e uma bíblia negra

A caridade de um velho amigo
Um sorriso cruel retorcido
E o sorriso me mostra o vazio
Pois para mim
A ausência das estrelas e uma bíblia negra
 

Céu azul prateado torna-se cinza 
Uma cinza esperança que anseia
 A ausência das estrelas e uma bíblia negra.

As emoções de Baal Zabub afloravam subtamente, e sem explicação ele ajoelhou-se e se pôs a chorar copiosamente. Agora ele deitava levemente sobre a terra agitada e molhada, e a lama que se formou toma conta de suas vestes. Zabub, em posição fetal, tornava-se frágil diante ao olhar perscrutador de Abdul Alhzred, que lhe estende a mão.

- Vêm, Zabub, amigo. - Disse com tom amigável. - Levante-se.

Zabub se levanta; E em meio a capa negra que protegia a túnica, Alhzred tira um livro e lhe entrega.

- Agora, pega e vêm comigo. - Disse, não mais amigável.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Deambulo curial

- talvez agora eu esteja pronto para deixar tudo no passado... - dizia Baal Zabub, enquanto delicadamente selava a cova com terra molhada.

- Falando sozinho, atormentado sicário da antiga Arcádia? - Pronunciava uma voz obscura, porém familiar.

- Quem és a ocultar a própria imagem?

- O seu velho e envergonhado amigo. - Pronunciava enquanto se aproximava à penumbra lunar.


- Ah, Alhazred, veja o que eu fiz, minha lástima. Eu,.... eu não tive a intenção.

- Baal Zabub, culpa-te demais pelo ocorrido. Aceita tua condição de vítima. - Disse Alhazred com as mão apoiadas nos ombros de Baal Zabub, previa amplexos.

- Vítima? Mas eu a matei...

Alhazred interrompe - A morte dela foi apenas consequência natural de todos os fatos da sua história. Deve culpar aquele que detem a sua vida como um títere. Aquele que controla sua vida com cruzetas e cordéis.

Baal Zabub se cala, sente o conforto de um convencimento, e com a ajuda de Alhazred, fecha a tumba com uma campa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A cortina de mortalha


Ao deparar-se com o corpo, com desenrascanço, defenestrou-a rapidamente.
Pela janela, o corpo caía por entre o manto da noite chuvosa e desaparecia. Ouviu-se somente a pancada seca do encontro com a terra molhada.
Baal Zabub, debruçado pela janela, volta seu corpo para dentro do cômodo e segue porta a fora descendo pelos andares. Tentava não perder o tino de sí mesmo enquanto com passos largos caminhava em direção a saída.

Saía pela porta e dentre a escuridão via raios furtivos que cortavam o céu e iluminavam a madrugada chuvosa, e vento frio e pungente daquela noite soprava feridas que sangravam gotas da chuva. Baal Zabub contornava a taberna e tentava procurar o corpo da jovem em meio à umbra.
Ao ver a jovem violada, Baal Zabub vexava-se do ocorrido e sentia a vontade de se desfazer daquela situação. Subitamente encontrou uma pá, próximo à parede, e pôs-se a cavar.

Com o vigor de um coveiro e a delicadeza de um artesão, cavava uma cova exata para depositar Adamantéia.



Mas, em meio ao sepultamento, uma figura conhecia torna-se presente - que observava todo o ocorrido há tempos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O véu e o abismo


Um soco no espelho. Os cacos de vidro, ruidosos, acordam Adamantéia ao mesmo tempo em que perfuram a mão de Baal zabub.
Olha a chaga, e o líquido escarlate que escorre entre os dedos causam uma verdadeira comoção em Baal Zabub.
Queria sua amada! Vê-la como no fatídico dia em que um Anjo ensinou a arte do fogo ao homem, e a Serpente ofereceu o Fruto proibido à mulher.
Baal Zabub então, revoltado, pega o maior pedaço de vidro que encontra e dirige-se em direção a Adamantéia, que aflita, agonizava de pavor. Rapidamente, com estocadas frenéticas e pungentes, os gritos agônicos são silenciados.
E como aquela bela púbere parecia agora?
Desfigurada face dentre as feridas; a palidez resurge, embora manchada de sangue. A boca, rasgada, não pede mais por beijos, e a imagem final é de um ser violado por uma navalha - um pedaço pontiagudo e cortante de vidro.
Baal Zabub senta ao lado do corpo falecido - nunca havia feito algo parecido. Respeitara a vida, assim como nos tempos da antiga Arcádia, quando ainda não conhecia a perdição.
E põem-se a pensar. Relembra dos tempos férreos.


Com nostalgia, lembrava do governo de Cronos, quando a Paz e harmonia predominavam.
Os humanos não envelheciam, e o morrer era simplesmente cair em um sono profundo.
A primavera era eterna. e as pessoas eram alimentadas com bolotas de grandes árvores que possuíam frutas silvestres e onde mel gotejava de suas copas. Os espíritos daqueles homens que morriam eram conhecidos como Aimones e existiam como mentores para os antigos arcadianos e edenianos.

Naquele cômodo frio e de sentimentos tão sombrios, Baal Zabub sentia que não havia vivido aquele momento, e logo se depara novamente com o corpo que ensanguentava o colchão de palha, agora úmida.

domingo, 12 de julho de 2009

Do sonho, início


O tempo passa, e o movimento do salão diminui. A música, as luzes, as conversas, os romances, o jogo, naturalmente desaparecem. E tão natural quanto, é a aparição de outros vícios. Pessoas locupletavam-se da ausência de outrens para praticar a vergonha decadente do ser humano - felação, cunilíngua, onanismo, sodomia, estupro, rapto, adultério, concubinato, incesto, bestialidade, lenocínio e molície. O ambiente agora é tomado pelo pecado.
Como é triste esse lugar, repudiável. Por que continuar em um lugar desses?
Baal Zabub sai, vai até o seu quarto. Adamantéia ainda está lá. E pela primeira vez ele realmente repara em seu rosto. Os traços leves, e delicados, a pele branca e pálida, o formato da boca que pede sempre por um beijo.
E fica adimirando-a por um tempo.
Esquecer de tudo, zabub anceia.
Deita na cama de colchão de palha. Como é difícil sentir aconchego depois de deixar o lar tantas vezes, há tantos tempos...

Tenta dormir, e distante se faz presente, somente para seus ouvidos, a voz do Oniromante. Voz fria, que se aproxima lentamente. Ele dorme... Ele sonha.


Agora ele consegue entender as palavras, e então, imagens começam a se formar.

Em seus sonhos aparecem àquelas primitivas épocas do Período de Cronos, quando Baal Zabub ainda era um homem simples, quando ainda não havia colhido vícios, quando ainda não era amigo de lupanares nem de tabernas.

Todas aquelas cenas deslizavam-se em sucessiva ordem, e Baal Zabub, as contemplava.
Um rosto familiar... Sim, é ela. E então se foi.
Logo depois apareceram as tabernas, as festas, as noites de vigília, e vieram os lupanares e a orgia.


Baal Zabub, cheio de terrível emoção interna, contempla aquelas antiquíssimas cenas e recorda de seus erros. Está diante das primitivas causas que o haviam conduzido ao seu estado atual.


De repente, surge dentro da cena algo tétrico e horrível. Uma figura sombria, vestido com túnica negra e tendo aros em suas orelhas. Os olhos, semelhante aos de um demônio, projetavam-se para fora em uma atmosfera de profundas trevas. Baal Zabub contemplava-o atônito.


Desperta assustado. Uma verdadeira Revolução, em Baal Zabub, está em atividade.
Baal Zabub revolta-se contra o ódio, contra o egoísmo, contra os vícios, contra a fornicação, contra a ira.

Levante-se e caminha ainda pálido, até o espelho.


Quem é esse rosto que me olha através do espelho e não me reconhece? Quem é esse ser que a cada dia mais se difere de mim?

domingo, 21 de junho de 2009

O livro sem lei


Não, nada disso. Este era tão-só um horrível e monstruoso transgressor da Lei:
Um mago negro.

Baal Zabub aprendeu, desse mago negro, certas chaves secretas para ganhar no vício do jogo.
A amizade se mesclava com o agradecimento mútuo, e assim o sinistro personagem conduzia-se pelo caminho negro...
Abdul Alhazred - esse é o nome do mago - que em busca de sabedoria, vagou de Alexandria ao Pundjab, passou muitos anos nos desertos despovoados do sul da Arábia.
Alhazred domina vários idiomas, e anjos caídos lhes ensinaram a confeccionar artefatos, armas, e praticar alta alquimia; além de ensinar encantos, astrologia e outros segredos.
Muito tempo ele investe no seu maior livro:
Al Azif - O Livro dos Nomes Mortos...





De longe Baal Zabub o observa. Alhazred, debruçado sob a mesa, parece não se encomodar com o som da música ou o tom das risadas. Ele está fazendo algo muito importante.
Em suas mãos um livro. Capa de couro, com certeza, e cada palavra escrita a mão.


Uma página é virada.
Seriam as folhas feitas de papel? Provavelmente não. Têm aspecto de pele humana, seca e esticada.
Outra página é virada.
Zabub se aproxima da mesa.

- Senhor Alhazred, muito ocupado? - pergunta Zabub, com tom curioso.

- Ah, se não é Zabub, o perturbado companheiro da orgia. Veio aprender outros truques?

- Não, senhor. Mas esse livro... que livro é esse?
Alhazred fecha o livro. Uma fina núvem de poeira com cheiro de séculos se levanta.
- Este... - Hesita. - ...Este é o Necronomicon, livro que contém os conhecimentos místicos coletados durante a minha vida. Toda a magia dos anjos decaídos, e das eras que antecedem a nossa existência.... Amigo da Antiga Arcádia!

- Imagino as chaves que deve conter tão secreto livro. - Diz Zabub.
- Não as imagine, tolo Zabub. Quem bebe dessa fonte se não iniciado às artes negras, padecerá da insanidade. Mas como pode ver, estou sim ocupado.



Abdul Alhazred se levanda e se retira do salão.


Tanto Baal Zabub quanto Abdul Alhazred experimentam-se do mundo. Zabub dança pelas planícies inconscientemente; Alhazred cruza fronteiras como viajante amadurecido. Mas ambos são o arquétipo do Embusteiro, porém de maneiras diferentes. As diferenças entre o boêmio e o mago, assemelham-se às que existem entre uma mentira e um ato mágico. Mentiras são verdades que não aconteceram; mágicas são atos impossíveis que se tornam realidade.
Baal Zabub engana, Abdul Alhazred mistifica.

sábado, 6 de junho de 2009

A Flor do delito


Desce, puxa uma cadeira.
O alegre companheiro da orgia agora é o rei da festa. Ri gostosamente em tertúlia com amigos, despreocupado e feliz na orgia.

À sombra do licor e da orgia, cresce a enfeitiçada flor do delito.
À sombra da folhagem núbil da paixão, o animal selvagem e o réptil rasteiro formam seu ninho.
Em meio à bebedeira e ao bacanal, Baal Zabub aprendeu a jogar grandes somas de dinheiro. E o dinheiro, bem como o pecado original, são coexistentes:
ambos são a tragédia do ser humano.


O jogo levou à ruína e ao suicídio a dama elegante, o astuto cavaleiro, o honesto trabalhador e o jogador boêmio...
Baal Zabub aprendeu o vício do jogo e ri alegre no bacanal, entre o seco ruído dos dados e o abrir alegre e triunfador de outra garrafa.
Porém, nunca faltava na orgia um personagem misterioso. Este fatídico personagem de rosto sinistro vestia túnica negra ao estilo da antiga Arcádia e em suas orelhas reluziam sempre grandes brincos de ouro.

Que mistério envolvia esse sinistro personagem?
Era acaso algum gênio da luz, vindo de remotas esferas?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A pálida amante



...Olhava para o espelho e as memórias vinham-lhe a mente. Porque pensas nela? Ela já se foi a tanto tempo. Se ao menos pudesses vê-la.
A saudade é pedra; e ele, apenas um Sísifo.

Olha para trás e ali está Adamantéia, a mais bela púbere desta vila decrépita, num desfalecido repouso, na cama onde minutos antes estavam envoltos em luxúria e devassidão.

Vestiu-se e saiu porta a fora.


Do corredor daquela casa ouve o som do salão. São gargalhadas estridentes, canecas batendo... Como veio para nesse lugar? A vontade é de ir embora, mas desce as escadas.

Todos olham.
 
 Quem é esse jovem de túnica cinzenta, olhos profundos e nariz aquilino, corpo alto e cabelos compridos? Quem é esse jovem que desce as escadas em passos despreocupados? Ah, é Baal Zabub, o amigo das tabernas, o companheiro da orgia, o galã da antiga Arcádia.